Meu caminho...‘Cidades Invisíveis’

Berço do Renascimento

FIRENZE (Itália)

Localizada na lindíssima região da Toscana, Firenze é considerada o berço do Renascimento. Por ela passaram os artistas Michelangelo, Leonardo da Vinci, Giotto, Botticelli, Caravaggio, Rafael e Donatello. Além disso, é a cidade natal de Dante Alighieri e Nicolau Maquiavel. Este grupo de peso possui suas principais obras espalhadas pelas ruas da cidade, pelas igrejas (lindas, diga-se de passagem) e museus.

Destaca-se a Galleria degli Uffize e a Galleria dell’Academia, onde se encontra o David, de Michelangelo (que  pintou a Capela Sistina), esculpido entre 1501 e 1504 usando um bloco único de mármore. A grande estátua representa aquele que matou Golias, momentos antes do ataque.

A cidade foi governada pela família Médici (do século XV até o século XVIII), que era grande patrocinadora das artes. Além disso, foram os Médici que deram a cara da famosa Ponte Velha. Ela, que anteriormente era de madeira, era destinada para os açougueiros da cidade, pois ali poderiam jogar os restos das carnes e o sangue no Rio Arno e manter a higiene da cidade.

Em 1565, Giogio Vasari construiu o Corredor Vasariano, que liga o Palazzo Vecchio (centro político e administrativo) com o Palazzo Pitti (residência dos Médici). Esse corredor passava pela ponte, que ficou coberta pelo corredor. Não satisfeito com o cheiro da ponte, Ferdinando I ordenou a retirada dos comerciantes e trouxe joalheiros e ourives para o local, que, até hoje, tem essa tradição. Porém, não pense que irá comprar bijuterias na Ponte Velha. São casas de ourives e as peças são incrivelmente caras. Logo, se tiver 62 mil euros para comprar um relógio, seja bem vindo ao lugar certo!

No centro da construção existem dois terraços. Um com o busto do artista Benvenuto Cellini, que fez a escultura de Perseu. As grades do monumento desapareceram debaixo dos cadeados que foram trancados ali pelos casais apaixonados. Em toda a Europa, mas, principalmente na Itália (Roma e Firenze) esse ato é comum. O Livro Tre metri sopra il cielo (Três metros sobre o céu, em italiano), do escritor Federico Moccia, traz personagens que selam seu amor usando um cadeado com seus nomes gravados (Babi e Step) e jogam a chave fora. A cena se passa na Ponte Milvio, sobre o Rio Tevere, em Roma.

Colosseum

ROMA (Itália)

O Anfiteatro Flaviano é mais conhecido como Coliseu, porque foi construído perto de uma estátua colossal do imperador Nero. O anfiteatro foi construído entre 70 e 90 d.C. com capacidade para 50 mil pessoas. Para erguer suas paredes de 48 metros de altura, foi preciso quase uma década de trabalho.

A construção foi utilizada por quase 500 anos. Com uma adaptação no quarto andar, podia receber mais de 90 mil espectadores. As apresentações eram verdadeiros shows de horror. No ano 107, registros mostram que o imperador Trajano celebrou sua vitória em Dácia durante 123 dias, envolvendo nas comemorações mais de 11 mil animais e 10 mil gladiadores.

Acredita-se ainda que o Coliseu era inundado com aquedutos para as batalhas navais. Até o ano de 404, muito sangue foi absorvido pela areia da arena, que era colocada de propósito para não deixar o chão escorregadio. Depois desta data, apenas podiam ser massacrados animais.

Ao caminhar pelas escadas e corredores desta imensa edificação, é possível imaginar as arquibancadas lotadas, sentir a euforia e o calor humano! Turistas de todo o mundo repetiam uma cena que aquelas paredes deviam estar cansadas de presenciar: a luta por um lugar melhor para ver a arena.

É preciso muita imaginação para reconstruir com a mente o Coliseu. Seguir a silhueta das ruínas até completar a arquibancada. Imaginar que pedras de mármore indicavam o assento dos imperadores… Mas, uma mente criativa pode perder alguns minutos ali, revivendo o local que outrora representava a morte.

Fontana di Trevi

ROMA (Itália)

Em português, a tradução pode ser meio tosca, Fonte dos Trevos, mas é exatamente esta a ideia. A fonte foi construída no cruzamento de três estradas (tre vie, em italiano). Ela era o ponto final do aqueduto mais importante de Roma, que serviu a cidade durante 400 anos. O Acqua Vergine, como era chamado, foi construído no século 19 a.C. e trazia água de uma fonte localizada há mais de 20 km de Roma.

Com as guerras e invasões, os aquedutos foram inutilizados. Durante a Idade Média, obter água em Roma não era um processo fácil e higiênico. A fonte foi reativada e reformada diversas vezes durante o Renascimento, quando vários artistas disputavam para terminar o projeto abandonado por Bernini. No final, a fonte ficou com a assinatura de Nicola Salvi, que a construiu em 1732.

Quem visita a fonte, hoje em dia, joga uma moeda. Esse gesto traz sorte e sucesso para que a pessoa volte a Roma pelo menos mais uma vez. Traz também mais de 700 mil euros por ano! O dinheiro jogado pelos turistas é recolhido e destinado para a Caritas.

Assim como tudo que é grandioso e famoso, a Fontana já passou por bons e maus momentos. Foi eternizada pelo filme de Fellini (assista o trecho) e foi cenário de um clipe do Bon Jovi (assista o clipe). Também foi alvo de protestos, como em 2007, que um manifestante jogou corante na água.

Mas, o que chama a atenção, é o número de pessoas que visitam a fonte. Faça chuva ou faça sol, de dia ou de noite, sempre terá que disputar espaço para uma boa foto. Além disso, é preciso ter muita paciência se quiser se aproximar das águas.

Cidade Horizontal

MACEIÓ (AL)

Um paraíso, pelo menos é o que aponta a orla. Uma cidade alargada. Gigante. De qualquer ponto A, para qualquer ponto B, é sempre um sacrifício, uma longa distância. O calor ajuda a sacrificar.

O céu e um mar maravilhoso. Uma cor maravilhosa. Chegando do aeroporto na cidade, anda-se muito, muito, muito. Para chegar até o centro da cidade, ou à sua orla maravilhosa, uma única avenida basta. Parace que alguém pegou a geografia daquele lugar e puxou com as mãos, esticando tudo. Distanciando tudo.

Por ser extremamente horizontal, o carro é muito usado, o que provoca muito trânsito (já que o coletivo parece não ser dos melhores). A cidade tem, de uma ponta a outra, todos os níveis sociais possíveis e, até mesmo, culturas bem diferentes, hábitos diferentes. Você pode ir das praias caribenhas até o sertão brasileiro ao cruzar a cidade.

Um lugar bonito, não sei se bom e dos melhores para curtir o mar, devido aos recifes que cobrem a orla da cidade. mas um lugar de pessoas abertas. Acolhedoras. Bons restaurantes. Boa comida. Boa tapioca. Calor. Quando se está na rua, o melhor é entrar em algum lugar e sentir o poder do ar condicionado.

Citadinos Portenhos

PORTO BELO (SC)

Simpática cidade com simpáticos moradores, daí. Uma gurizada trilegal, calma, vivendo a vida besta do poeta. Vida besta num paraíso. Que inveja. Simplicidade e orgulho ao mesmo tempo.

Poucas e boas opções. A melhor de todas não é passar lá e consumir, comprar lembranças, mas conversar com os citadinos e saber como é sua vida, como fazem os artesanatos, como aproveitam as belezas e como é a vida recebendo diariamente os vários turistas de cruzeiros. Esse é o turismo que deve ser valorizado.

Turismo não, experiencialismo! Experimente o que a cidade oferece de melhor: a vida.

Bondinho dos retrovisores

RIO DE JANEIRO (RJ)

Morro de Santa Teresa, Rio de Janeiro, Brasil. Bonde amarelo. Família abordo. Emoção. O maquinista avisa a partida. Alguns vão sentados, outros vão em pé. Todos já com suas máquinas fotográficas nas mãos prontas para registrar a vista que se tem quando o bonde passa em cima dos famosos Arcos da Lapa.

Para sair, o bondinho dá uma volta ao lado da catedral carioca, uma espécie de Torre de Babel que causa muita curiosidade para conhecer seu interior. O bondinho passa por um portão apertado, que os mais experientes já sabem e sempre avisam os novatos.

Eis que começa a passar por uma ponte estreita que pela sombra se denuncia como os Arcos . A vista é bela. A emoção maior ainda. O trilho apertado leva o bonde num balanço de ninar criança. Esperança de que os arcos acabem mais que a aventura continue.

Dito e feito. Entra numa rua, para num ponto. Pessoas descem, pessoas sobem. Pulam para dentro e para fora. Os trilhos começam a dividir o espaço da rua com pedestres e carros, ônibus, caminhões. A rua começa a se verticalizar. A cada metro para cima, o passado se denunciava cada vez mais. Casas lindas com uma arquitetura muito gentil. 

A rua aos poucos vai ganhando mais presença de carros e pessoas. Bares convidativos te fazem querem descer, mas a emoção de estar num bondinho é maior. A emoção fica mais emocionante quando o bonde bate no primeiro carro. Sustos, mas conversas com a mesma decisão: “ninguém mandou o motorista parar o carro aqui”.

Vai um, dois, três… retrovisores. A emoção agora pede mais carros. A cada curva, ao se deparar com um, a cena é de filme. Parece que o mundo vai acabar e que os motoristas têm que tirar seus carros de lá o mais rápido possível. Sobem na calçada. Entram em quintais, ruas sem saída.

Chega a rua sem saída do bonde amarelinho. É a hora da volta, é a hora de rever os retrovisores quebrados e, quem sabe, quebrar novos. Uma aventura, para quem está dentro, fora, em cima, do lado. Para os donos dos carros que estão na frente não é tão bom assim.

Descer é querer mais. Ruas, pontos, bares, arcos e novamente estamos atrás da catedral carioca, um grande e visível cone. Felizes e com a sensação maravilhosa de ter se divertido, aventurado, conhecido um lugar maravilhoso, pagando apenas alguns centavos.

Uma manhã

SÃO PAULO (SP)

O dia amanhecia fresco, com minúsculas partes da chuva descendo do céu. O azul calmante das manhãs não se fazia presente. O sol, tímido com as gotas e muitas nuvens enegrecidas, empobrecia-se de sua beleza matutina enquanto, lentamente, se esquivava entre os inúmeros prédios. As ruas refletiam as luzes dos postes que já estavam por finalizar a contagem regressiva para o fim de seus brilhos.

A cafeteira apitava, desesperadamente, avisando que o café estava pronto. Ao me aproximar dela, o cheiro exalava aquele líquido negro ímpar. Com o café na xícara, segurado pela mão esquerda e um bolo de fubá na outra mão, observava, da sacada do nono andar, várias pessoas caminhando em direção aos ônibus e metrô.

Alguns, os mais jovens, estavam de uniforme escolar. Outros, os menos jovens, com o cansaço impresso nos rostos. Era mais um dia na capital paulista. Desço para pegar o mesmo caminho do cotidiano daquela gente. Já no elevador encontro dois possíveis vizinhos que, antes, nunca tinha visto. Eram novos ou eram apenas desconhecidos meus por causa da correria e da frieza de São Paulo.

Somente criando um assunto poderia descobrir isso. Poderia dizer: “ainda bem que choveu essa noite, não aguentava mais o calor”. Poderia escutar: “é, ainda bem”. E, logo em seguida, puxar um bate-papo e desvendar o mistério. Mas não. A culpa por não conhecê-los não me deixou iniciar a conversação. Pelo menos não a essa hora da madrugada. “Como São Paulo congela os relacionamentos”, esse era meu pensamento de indignação, pois em outros tempos, ainda quando morava no interior, conhecia todos na rua.