Meu caminho...‘Crônicas’

Simplesmente, viver

Naquela manhã o sol não apareceu na sua janela, muito embora a tivesse deixado totalmente aberta. A água da chuva acariciava o telhado num gesto tão sereno que dormir era, sem dúvidas, a melhor opção. Um pássaro criava a trilha sonora do sonho. Porém, uma nota não fazia sentido naquela melodia. Atrapalhava o sono. Era o despertador.

Ele, que adorava acordar sem o alarme do relógio, mas sim com o sol esquentando sua face e clareando o seu dia, estava terrivelmente atrasado. O ponteiro já marcava 10 horas da manhã. Resmungou muito. Agora, era tomar banho, se arrumar, comer algo correndo e partir para mais uma dia, como todos os outros.

Na rua, a caminho do trabalho, o de sempre: cara fechada, passos rápidos, olhar baixo. Já na empresa, abria a boca pela primeira vez para expressar um bom dia discreto para os colegas. Ligava o computador, sentava na cadeira giratória que o interagia durante toda a jornada até a hora de fazer, do mesmo modo, todo o trajeto pra casa.

Sua vida era assim! Ou melhor, sua rotina era assim, porque a partir do momento que ele começou a viver, seus dias ficaram diferentes. Com sol ou chuva, acordava com um sorriso. Falava sozinho, com os objetos, com a água gelada do chuveiro que demorava para esquentar.

Na rua, olhava nos olhos das pessoas. Expressava um cumprimento com o olhar, quase que simulando um código secreto que só ele e quem retribuía entendiam. Já na empresa, não dava apenas um bom dia, mas doava risadas, fazia brincadeiras, ajudava os colegas e não se importava com a falsidade alheia. Sua meta, além de cumprir com sua obrigação, era ser feliz. E como não se é feliz sozinho, tinha que fazer os outros ao seu redor felizes também.

Agora ele vivia e viver é agir. Até que um dia, o sol novamente não apareceu na sua janela. A chuva o convidou para dormir até mais tarde e a melodia do passarinho foi novamente atrapalhada pelo despertador. Ele acordou, deu um sorriso e correu se arrumar para ir trabalhar, porque viver também é aceitar a realidade. O que o motivava era o desafio de conviver com os colegas, de poder conversar, fazer rir e dar risada junto. Ele descobriu que viver é se relacionar, pois o ser humano é um ser social.

Ele descobriu que para viver, não basta estar vivo, mas é preciso, simplesmente, viver!

Segredo enterrado

Morava no bairro de Itaquera em São Paulo. Local simples, com moradores que sabiam aproveitar as praças para ter uma vida social. Com algumas pessoas no bairro criamos o E-1, um grupo que convidava todos para jogarem vôlei e se confraternizarem. A vida ali era tão boa que várias vezes os vizinhos desligavam a televisão para ficarmos conversando. Dizem que depois que eu parti as coisas mudaram, a vida social acabou. O medo se instaurou.  

Essa mudança aconteceu no dia 9 de janeiro de 1971. Com minha família fui me divertir na represa Billings, que não era lá uma grande aventura. Meu marido aproveitava para pescar. Minha filha Helena aproveitava para nadar. Eu descansava ao sol. Quando voltamos para casa, fui fritar uns peixinhos. Convidei alguns vizinhos para experimentar.

Já de noite, após o jantar, via minha filha brincar de pegador. O relógio já tinha passado das dez e meia. Estava sentada num balanço onde podia observar a vila ainda iluminada. Quando de repente uma perua verde entrou, sendo anunciada pela vizinhança como policiais. Foi uma correria. Cercaram-me. Colocaram-me dentro do carro. Minha filha segurou Isa, a cadela, e perguntou onde me levariam. Disseram que eu daria uma volta e que logo estaria de volta. Mentiram. Mentiram para minha filha.

Os momentos seguintes só foram registrados pela minha memória e pela memória de meus assassinos. Minha filha, minha família, meus amigos jamais saberão a verdade, o que de fato aconteceu, pois minha memória, que podia narrar os fatos, foi apagada. Esse segredo foi enterrado, junto com o caso Bensadon.

Fora da Garagem

Para ele todos os dias eram iguais. Via o sol nascer e a porta da cozinha se abrir. Escutava uma bela e preguiçosa voz amanhecida. Via o portão se abrir sabendo que estava na hora. Destrancava-se e acolhia quem sempre o guiava. Ligava-se e saia da garagem. Esperava que o portão fosse fechado e partia para as ruas.

Embora novo, com apenas alguns meses de fabricação, já conseguia identificar os dias da semana. De segunda a sexta sempre caminhava pelas mesmas faixas até um lugar chamado “trabalho”. Não gostava muito desse lugar, pois tinha que ficar horas lá fora esperando, onde aproveitava para conhecer novos modelos, novas cores. Muitas vezes reencontrava alguns. De sábado e domingo, podia ficar desligado até mais tarde para depois passear, geralmente indo para um lugar chamado “supermercado”, onde sempre ganhava um peso a mais para carregar na volta.

Gostava quando encontrava versões do seu modelo. Gostava quando via nos branquelos o reflexo do seu vermelho. Não gostava quando, da traseira de alguns, especialmente dos grandões, sentia um cheiro ruim e muita fumaça. Não gostava dos amarelões esportivos e bombados, pois ficava alaranjado. Definitivamente não gostava dos que passavam bem perto dele, nem dos buracos que o envelheciam mais rápido.

Acostumado a receber elogios diariamente, saiu de casa naquela manhã sabendo que era sábado, pois não precisou dar partida logo cedo. Achava que ia ser como na semana passada, ou retrasada. Mas, quando voltou, não parou na garagem. Até aí tudo bem, “devo sair daqui a pouco de novo”, afinal de contas, sempre foi assim. Estar fora significa que em instantes fará um novo passeio. Se tivesse um rabo, iria balançá-lo ansiosamente, assim como o cachorro ao ver a comida na mão de seu dono, sabendo que vai recebê-la. Aguardou.

Passaram se minutos que totalizaram horas. A temperatura lentamente se fazia aproximar do zero. Ele começou a se preocupar. Lembrava que todos estavam do portão para dentro, mas ele não. Estavam na cozinha, rindo, conversando, comendo, mas ele não podia vê-los. Sempre pôde, por que não pode mais? Começou a ficar curioso para saber o que acontecia lá.

Aos poucos percebeu que a movimentação dentro da casa ia ficando cada vez mais silenciosa e inconstante. Como de costume, os seus visinhos chegavam e entravam na garagem. Luzes se apagavam, igual quando iam todos dormir. Mas se iam todos dormir, o que fazia do lado de fora? Nunca ficou para fora, nem mesmo por algumas horas no período da tarde. Seu motor começava a injetar o perigo de estar do lado de fora.

Podia tocar seu alarme e chamar atenção para o que estava acontecendo. Mas isso iria mostrar que era frágil e medroso. Depois seria levado para o mecânico, onde iriam despi-lo para trocar peças e mais peças, falando que seu sistema nervoso não estava dos melhores.

A última luz da casa se apaga. Uma última voz é escutada. “Isso não pode estar acontecendo”. Começou a pingar água do carburador. Então ele se dá conta de que pela primeira vez vai dormir fora de casa, como seu irmão mais velho. Na casa era uma garagem e dois carros. Ele sempre dormia dentro e o outro fora, muitas vezes o outro nem voltava do “trabalho”. Muito raramente os dois passavam a noite dentro. Naquela noite, estava sozinho. E do lado de fora. Isso o consolou, principalmente porque no dia seguinte poderia contar sua aventura e coragem para o irmão mais velho.

Um pedaço

Então começava a chover. Ela sempre se esquecia de pegar o guarda-chuva e por isso sempre se molhava. Mas dessa vez foi diferente. Estava a dois quarteirões de casa quando caiu sobre ela um pequeno pedaço de chuva. Como não queria chegar molhada no trabalho, voltou o pedaço da rua que já tinha percorrido para pegar o guarda-chuva. Tinha que correr um pouco, pois o ônibus do trabalho, que sempre passava a cinco minutos de sua casa, não podia esperá-la nem mesmo um pedaço de minuto.

Em casa, pega o elevador e, entre o nono andar com o décimo, ele se desliga. “Ok” pensou Joanita, pois com a corridinha que deu ainda tinha uns minutos. Porém seu pensamento mudou depois de dez minutos ali. Não tinha mais tempo, sua condução, com certeza, tinha passado já.

- Parabéns! Meus Parabéns! Único dia chuvoso que não vai chegar molhada no serviço vai ser hoje, que nem vai chegar – pensou alto.

Gritou por quinze minutos até que repararam o elevador. Nervosa, chega ao seu pedaço do andar e vai direto ligar pra sua amiga do posto de gasolina e pedir para ela parar o ônibus. Tinha certeza que a amiga faria isso se esta também não estivesse atrasada.

A tristeza toma conta de um pedaço do seu rosto. Desce todos os 437 pedaços da escada com o guarda-chuva nas mãos. Lá embaixo, não chovia mais. Correu como nunca na sua vida, mas não era isso que iria fazê-la chegar a tempo. Não viu nem mesmo um pedaço do ônibus que já estava muito longe.

Dela, saiam pedaços de suor que a molhavam. Estava ainda no primeiro pedaço, de seis, do dia. Decidiu voltar pra casa, como se tivesse melhores opções, para aproveitar o pedaço final da noite e dormir, terminando o seu pedaço de sonho que tinha começado antes da chuva iniciar.

Eram oito quarteirões e no meio do primeiro pedaço do caminho, três garotos se aproximaram dela e pegaram seu guarda-chuva. Agora começam quatro pedaços de cenas que terminam em uma coisa só: 1) os garotos correm – para o escuro; 2) ela corre – para casa; 3) a chuva, que estava no primeiro pedaço da estória, começa a descer – para o chão; e 4) ela vê um pedaço de um homem atrás de uma árvore – ambos não andavam pra lugar nenhum.

Enquanto correndo se aproximava dele, escuta um pedaço de uma frase: “não… medo… eu não te… mal!”. Ela vai mais devagar, molhada também, e vendo que ele agora começava a vir na sua direção, para de caminhar.

- Venha para baixo do meu guarda-chuva. Não tenha medo, eu não te farei mal! Vi, não tudo, mas um pedaço do que fizeram com você. Vou te ajudar – disse ele que começava a sair do escuro deixando ver um pedaço de sua face.

Ouvindo isso, e vendo a beleza do dono daquela voz, um pedaço de choro saiu e se misturou com os pedaços de chuva e de suor que cobriam sua linda face. O abraçou e foi debaixo do pedaço de guarda-chuva. Agora Joanita Teixeira que trabalhava no posto de gasolina, via a face inteira de Lucas Peixoto. A cena era divertida: um totalmente seco e outra molhada debaixo do mesmo, e único, guarda-chuva e foi assim que ele a levou durante todo o caminha até a casa.

Deixo essa estória assim, completa, mas sem um pedaço importante. Direi somente que ela nunca mais, em toda a vida, precisou de um guarda-chuva, pois depois daquele dia, a única coisa que tinha em pedaços era um guarda-chuva.

Uma verdadeira telenovela

Mais ou menos a dois metros sobre as cabeças das pessoas, tinha um olhar. Nesse, uma vida. Passava o tempo, estava ali. Mudava o tempo, estava ali. Somente uma ação: observar. Sem descanso. Nas manhãs, ainda preguiçoso, via todos aqueles que chegavam para trabalhar e estudar. Eram sempre as mesmas pessoas que se faziam observar. Por isso o trabalho enchia o saco. Ás vezes trabalhava para os cansados: era o apoio deles.

O olhar gostava dos dias de chuva, pois via várias pessoas correndo e também várias cores de guarda-chuva. Mesmo assim, guarda-chuva preto era a maioria. Era feliz, ou menos triste, de madrugada, porque tinha luz onde deveria dar mais atenção, como na porta do banco. As luzes descansavam o dia todo, todos os dias e o deixavam sozinho, observando sozinho aquilo que o sol iluminava.

A noite era o momento certo para prestar mais atenção, mas também o melhor momento para poder descansar, pois não tinham as pessoas e se tinha uma, havia algo errado. Como nunca via as pessoas de noite, se sentia inútil. Viu somente duas vezes em cinco anos. A primeira vez que viu foi à meia noite quando um casal estava escondido numa escada azul. A segunda vez foi responsável da mudança dessa vida.

Era dia, muito calor. Observava a sombra onde muitos descansavam depois do almoço. Atrás do olho acontecia outra cena, muito diferente: uma mulher gritava por ajuda dizendo que foi roubada. Só depois de cinco minutos é que o olho moderno girou para ver o acontecido, porém não tinha mais nada. Deviam fazer alguma coisa, não era possível que um olhar assim caro não valesse a pena.

Ele se sentia muito mal. “Como assim não vi nada?” refletia. Queria fechar os olhos para nunca mais ver, mas nas outras 37 vezes que tinha feito isso, o curaram. Três dias depois, vê de longe vir o seu médico, aquele que o fez ver melhor nos últimos dois anos. “Não tenho nenhuma doença, por que ele esta vindo?” estava desesperado. O doutor se aproxima, coloca uma escada, pega o olho nas mãos e com uma faca na outra faz tudo ficar preto.

Um fim de semana depois, se fez a luz. A vista um pouco ruim. Alguns minutos depois volta ao normal. Mas onde estava sua escada azul? Onde estava seu banco? A árvore? Como assim!?! Via somente uma parede alaranjada e pouco depois, quando começou a girar, um espelho. Nesse, se via mais bonito, com um novo vidro preto e redondo que o cobria. Via também uns números na parede, do um ao onze.

Perguntou o que fazia ali naquele cubinho segundos antes de sentir descer. Como assim, a parede desce? Tudo para quando a porta se abre e uma voz diz: “Terceiro andar. Desce”. Entra o seu médico, a porta se fecha, o muro desce, para, a porta se abre, a voz diz “Térreo. Sobe”, e o médico sai. Depois disso entram muitas pessoas. Vinte e duas era o máximo. Cada uma apertava um botão com os números e a porta se fechava para abrir no número do andar correspondente ao número apertado.

Passaram dias para poder, a câmera, entender isso. Era um elevador. Mas passaram somente alguns segundos para ser prazeroso. Antes, só observava, agora ria com as pessoas. Sempre ouvia as mesmas palavras. “Tudo bem?” “Oi” “Não acreditava que chovesse hoje!” etc. Às vezes gostava de ver quando duas pessoas estavam juntas, mas não falavam nada, era suficiente ver o corpo que se fechava e o olho deles que olhavam o infinito. Mas o mais engraçado eram as pessoas que entravam sozinhas. Olhavam o espelho frequentemente.

Esse novo lugar não era mais diferente que o antigo, mas era mais interessante de se observar. Observava, observava… Alguns meses depois viu um olhar móvel com uma pessoa do primeiro andar… Um olhar como eu, mas móvel! Um olhar. E assim o olhar olhou o olhar com olhos apaixonados. Todas às vezes, quando o elevador anunciava o primeiro andar, o olhar olhava com muita esperança, daqueles que só quem ama sabe dar.