Para ele todos os dias eram iguais. Via o sol nascer e a porta da cozinha se abrir. Escutava uma bela e preguiçosa voz amanhecida. Via o portão se abrir sabendo que estava na hora. Destrancava-se e acolhia quem sempre o guiava. Ligava-se e saia da garagem. Esperava que o portão fosse fechado e partia para as ruas.

Embora novo, com apenas alguns meses de fabricação, já conseguia identificar os dias da semana. De segunda a sexta sempre caminhava pelas mesmas faixas até um lugar chamado “trabalho”. Não gostava muito desse lugar, pois tinha que ficar horas lá fora esperando, onde aproveitava para conhecer novos modelos, novas cores. Muitas vezes reencontrava alguns. De sábado e domingo, podia ficar desligado até mais tarde para depois passear, geralmente indo para um lugar chamado “supermercado”, onde sempre ganhava um peso a mais para carregar na volta.

Gostava quando encontrava versões do seu modelo. Gostava quando via nos branquelos o reflexo do seu vermelho. Não gostava quando, da traseira de alguns, especialmente dos grandões, sentia um cheiro ruim e muita fumaça. Não gostava dos amarelões esportivos e bombados, pois ficava alaranjado. Definitivamente não gostava dos que passavam bem perto dele, nem dos buracos que o envelheciam mais rápido.

Acostumado a receber elogios diariamente, saiu de casa naquela manhã sabendo que era sábado, pois não precisou dar partida logo cedo. Achava que ia ser como na semana passada, ou retrasada. Mas, quando voltou, não parou na garagem. Até aí tudo bem, “devo sair daqui a pouco de novo”, afinal de contas, sempre foi assim. Estar fora significa que em instantes fará um novo passeio. Se tivesse um rabo, iria balançá-lo ansiosamente, assim como o cachorro ao ver a comida na mão de seu dono, sabendo que vai recebê-la. Aguardou.

Passaram se minutos que totalizaram horas. A temperatura lentamente se fazia aproximar do zero. Ele começou a se preocupar. Lembrava que todos estavam do portão para dentro, mas ele não. Estavam na cozinha, rindo, conversando, comendo, mas ele não podia vê-los. Sempre pôde, por que não pode mais? Começou a ficar curioso para saber o que acontecia lá.

Aos poucos percebeu que a movimentação dentro da casa ia ficando cada vez mais silenciosa e inconstante. Como de costume, os seus visinhos chegavam e entravam na garagem. Luzes se apagavam, igual quando iam todos dormir. Mas se iam todos dormir, o que fazia do lado de fora? Nunca ficou para fora, nem mesmo por algumas horas no período da tarde. Seu motor começava a injetar o perigo de estar do lado de fora.

Podia tocar seu alarme e chamar atenção para o que estava acontecendo. Mas isso iria mostrar que era frágil e medroso. Depois seria levado para o mecânico, onde iriam despi-lo para trocar peças e mais peças, falando que seu sistema nervoso não estava dos melhores.

A última luz da casa se apaga. Uma última voz é escutada. “Isso não pode estar acontecendo”. Começou a pingar água do carburador. Então ele se dá conta de que pela primeira vez vai dormir fora de casa, como seu irmão mais velho. Na casa era uma garagem e dois carros. Ele sempre dormia dentro e o outro fora, muitas vezes o outro nem voltava do “trabalho”. Muito raramente os dois passavam a noite dentro. Naquela noite, estava sozinho. E do lado de fora. Isso o consolou, principalmente porque no dia seguinte poderia contar sua aventura e coragem para o irmão mais velho.