Morava no bairro de Itaquera em São Paulo. Local simples, com moradores que sabiam aproveitar as praças para ter uma vida social. Com algumas pessoas no bairro criamos o E-1, um grupo que convidava todos para jogarem vôlei e se confraternizarem. A vida ali era tão boa que várias vezes os vizinhos desligavam a televisão para ficarmos conversando. Dizem que depois que eu parti as coisas mudaram, a vida social acabou. O medo se instaurou.  

Essa mudança aconteceu no dia 9 de janeiro de 1971. Com minha família fui me divertir na represa Billings, que não era lá uma grande aventura. Meu marido aproveitava para pescar. Minha filha Helena aproveitava para nadar. Eu descansava ao sol. Quando voltamos para casa, fui fritar uns peixinhos. Convidei alguns vizinhos para experimentar.

Já de noite, após o jantar, via minha filha brincar de pegador. O relógio já tinha passado das dez e meia. Estava sentada num balanço onde podia observar a vila ainda iluminada. Quando de repente uma perua verde entrou, sendo anunciada pela vizinhança como policiais. Foi uma correria. Cercaram-me. Colocaram-me dentro do carro. Minha filha segurou Isa, a cadela, e perguntou onde me levariam. Disseram que eu daria uma volta e que logo estaria de volta. Mentiram. Mentiram para minha filha.

Os momentos seguintes só foram registrados pela minha memória e pela memória de meus assassinos. Minha filha, minha família, meus amigos jamais saberão a verdade, o que de fato aconteceu, pois minha memória, que podia narrar os fatos, foi apagada. Esse segredo foi enterrado, junto com o caso Bensadon.