Então começava a chover. Ela sempre se esquecia de pegar o guarda-chuva e por isso sempre se molhava. Mas dessa vez foi diferente. Estava a dois quarteirões de casa quando caiu sobre ela um pequeno pedaço de chuva. Como não queria chegar molhada no trabalho, voltou o pedaço da rua que já tinha percorrido para pegar o guarda-chuva. Tinha que correr um pouco, pois o ônibus do trabalho, que sempre passava a cinco minutos de sua casa, não podia esperá-la nem mesmo um pedaço de minuto.

Em casa, pega o elevador e, entre o nono andar com o décimo, ele se desliga. “Ok” pensou Joanita, pois com a corridinha que deu ainda tinha uns minutos. Porém seu pensamento mudou depois de dez minutos ali. Não tinha mais tempo, sua condução, com certeza, tinha passado já.

- Parabéns! Meus Parabéns! Único dia chuvoso que não vai chegar molhada no serviço vai ser hoje, que nem vai chegar – pensou alto.

Gritou por quinze minutos até que repararam o elevador. Nervosa, chega ao seu pedaço do andar e vai direto ligar pra sua amiga do posto de gasolina e pedir para ela parar o ônibus. Tinha certeza que a amiga faria isso se esta também não estivesse atrasada.

A tristeza toma conta de um pedaço do seu rosto. Desce todos os 437 pedaços da escada com o guarda-chuva nas mãos. Lá embaixo, não chovia mais. Correu como nunca na sua vida, mas não era isso que iria fazê-la chegar a tempo. Não viu nem mesmo um pedaço do ônibus que já estava muito longe.

Dela, saiam pedaços de suor que a molhavam. Estava ainda no primeiro pedaço, de seis, do dia. Decidiu voltar pra casa, como se tivesse melhores opções, para aproveitar o pedaço final da noite e dormir, terminando o seu pedaço de sonho que tinha começado antes da chuva iniciar.

Eram oito quarteirões e no meio do primeiro pedaço do caminho, três garotos se aproximaram dela e pegaram seu guarda-chuva. Agora começam quatro pedaços de cenas que terminam em uma coisa só: 1) os garotos correm – para o escuro; 2) ela corre – para casa; 3) a chuva, que estava no primeiro pedaço da estória, começa a descer – para o chão; e 4) ela vê um pedaço de um homem atrás de uma árvore – ambos não andavam pra lugar nenhum.

Enquanto correndo se aproximava dele, escuta um pedaço de uma frase: “não… medo… eu não te… mal!”. Ela vai mais devagar, molhada também, e vendo que ele agora começava a vir na sua direção, para de caminhar.

- Venha para baixo do meu guarda-chuva. Não tenha medo, eu não te farei mal! Vi, não tudo, mas um pedaço do que fizeram com você. Vou te ajudar – disse ele que começava a sair do escuro deixando ver um pedaço de sua face.

Ouvindo isso, e vendo a beleza do dono daquela voz, um pedaço de choro saiu e se misturou com os pedaços de chuva e de suor que cobriam sua linda face. O abraçou e foi debaixo do pedaço de guarda-chuva. Agora Joanita Teixeira que trabalhava no posto de gasolina, via a face inteira de Lucas Peixoto. A cena era divertida: um totalmente seco e outra molhada debaixo do mesmo, e único, guarda-chuva e foi assim que ele a levou durante todo o caminha até a casa.

Deixo essa estória assim, completa, mas sem um pedaço importante. Direi somente que ela nunca mais, em toda a vida, precisou de um guarda-chuva, pois depois daquele dia, a única coisa que tinha em pedaços era um guarda-chuva.