Mais ou menos a dois metros sobre as cabeças das pessoas, tinha um olhar. Nesse, uma vida. Passava o tempo, estava ali. Mudava o tempo, estava ali. Somente uma ação: observar. Sem descanso. Nas manhãs, ainda preguiçoso, via todos aqueles que chegavam para trabalhar e estudar. Eram sempre as mesmas pessoas que se faziam observar. Por isso o trabalho enchia o saco. Ás vezes trabalhava para os cansados: era o apoio deles.

O olhar gostava dos dias de chuva, pois via várias pessoas correndo e também várias cores de guarda-chuva. Mesmo assim, guarda-chuva preto era a maioria. Era feliz, ou menos triste, de madrugada, porque tinha luz onde deveria dar mais atenção, como na porta do banco. As luzes descansavam o dia todo, todos os dias e o deixavam sozinho, observando sozinho aquilo que o sol iluminava.

A noite era o momento certo para prestar mais atenção, mas também o melhor momento para poder descansar, pois não tinham as pessoas e se tinha uma, havia algo errado. Como nunca via as pessoas de noite, se sentia inútil. Viu somente duas vezes em cinco anos. A primeira vez que viu foi à meia noite quando um casal estava escondido numa escada azul. A segunda vez foi responsável da mudança dessa vida.

Era dia, muito calor. Observava a sombra onde muitos descansavam depois do almoço. Atrás do olho acontecia outra cena, muito diferente: uma mulher gritava por ajuda dizendo que foi roubada. Só depois de cinco minutos é que o olho moderno girou para ver o acontecido, porém não tinha mais nada. Deviam fazer alguma coisa, não era possível que um olhar assim caro não valesse a pena.

Ele se sentia muito mal. “Como assim não vi nada?” refletia. Queria fechar os olhos para nunca mais ver, mas nas outras 37 vezes que tinha feito isso, o curaram. Três dias depois, vê de longe vir o seu médico, aquele que o fez ver melhor nos últimos dois anos. “Não tenho nenhuma doença, por que ele esta vindo?” estava desesperado. O doutor se aproxima, coloca uma escada, pega o olho nas mãos e com uma faca na outra faz tudo ficar preto.

Um fim de semana depois, se fez a luz. A vista um pouco ruim. Alguns minutos depois volta ao normal. Mas onde estava sua escada azul? Onde estava seu banco? A árvore? Como assim!?! Via somente uma parede alaranjada e pouco depois, quando começou a girar, um espelho. Nesse, se via mais bonito, com um novo vidro preto e redondo que o cobria. Via também uns números na parede, do um ao onze.

Perguntou o que fazia ali naquele cubinho segundos antes de sentir descer. Como assim, a parede desce? Tudo para quando a porta se abre e uma voz diz: “Terceiro andar. Desce”. Entra o seu médico, a porta se fecha, o muro desce, para, a porta se abre, a voz diz “Térreo. Sobe”, e o médico sai. Depois disso entram muitas pessoas. Vinte e duas era o máximo. Cada uma apertava um botão com os números e a porta se fechava para abrir no número do andar correspondente ao número apertado.

Passaram dias para poder, a câmera, entender isso. Era um elevador. Mas passaram somente alguns segundos para ser prazeroso. Antes, só observava, agora ria com as pessoas. Sempre ouvia as mesmas palavras. “Tudo bem?” “Oi” “Não acreditava que chovesse hoje!” etc. Às vezes gostava de ver quando duas pessoas estavam juntas, mas não falavam nada, era suficiente ver o corpo que se fechava e o olho deles que olhavam o infinito. Mas o mais engraçado eram as pessoas que entravam sozinhas. Olhavam o espelho frequentemente.

Esse novo lugar não era mais diferente que o antigo, mas era mais interessante de se observar. Observava, observava… Alguns meses depois viu um olhar móvel com uma pessoa do primeiro andar… Um olhar como eu, mas móvel! Um olhar. E assim o olhar olhou o olhar com olhos apaixonados. Todas às vezes, quando o elevador anunciava o primeiro andar, o olhar olhava com muita esperança, daqueles que só quem ama sabe dar.